...continuação OS TRÊS PERÍODOS DE VIDA MEDIÚNICA
Mesmo sem tempo, Chico conseguiu desenvolver-se mediunicamente com a colaboração do casal Perácio. Em 1934, quando o casal transferiu-se para Belo Horizonte, a presidência do centro espírita de Pedro Leopoldo foi entregue a José Cândido Xavier, irmão de Chico. "Tive três períodos distintos em minha vida mediúnica", relata Chico Xavier, no início de Parnaso. "O primeiro, de completa incompreensão para mim, é aquele dos 5 anos de idade, quando via minha mãe proteger-me, até aos dezessete anos, quando a doutrina espírita penetrou em nossa casa. O segundo, de 1928 a 1931, no qual psicografei centenas de mensagens que os benfeitores espirituais, mais tarde, determinariam que fossem inutilizadas, porque em suas opiniões essas mensagens eram apenas esboços e exercícios. O terceiro período começou com a presença do nosso abnegado Emmanuel, que, em 1931, assumiu o encargo de orientar todas as atividades mediúnicas até agora".
A VIDA PREGRESSA DE EMMANUEL
Após inúmeros contatos com Emmanuel, Chico conseguiu saber algo sobre a vida pregressa do espírito benfeitor: ele esteve na pele de um senador Romano da Judéia, Publius Lentulus, casado com Lívia, com quem teve um filha de nome Flávia. Sua vida era cercada de luxo e ostentação, totalmente devotada ao imperador César, enquanto que Lívia dedicou sua vida a Deus. Presenciou da arquibancada de honra do Circo Máximo, a execução da mulher que amava e que se convertera ao cristianismo, sem manifestar qualquer reação que impedisse a ocorrência funesta.
Desencarnou tragicamente, no ano de 79, em Pompéia, quando da erupção do Vesúvio. Anos mais tarde, reencarnou como Nestório, negro de grande cultura. Foi feito escravo pelos romanos e comprado por uma família nobre de Roma que o aproveitou como professor. Cristão desde a juventude, foi um dos assistentes das pregações evangélicas do apóstolo João Evangelista em Efeso. Freqüentava as reuniões nas catacumbas e, certa noite, na ausência do pregador Policarpo, substitui-o encaminhando a palestra. Após belíssimos ensinamentos, ele e todos os que o ouviram, foram presos e condenados a morrer a flechadas e a serem devorados pelas feras no Circo Máximo.
A mais recente reencarnação de Emmanuel teria sido como o Padre Manuel da Nóbrega, primeiro apóstolo do Brasil. Nasceu em Sanfins, Portugal, em 18 de outubro de 1517 e desencarnou no Rio de Janeiro, no Colégio dos Jesuítas, por ele mesmo construído, no ano de 1570, no mesmo dia e mês de seu nascimento, contando com 53 anos de idade sendo a tuberculose a causa de sua morte.
Mesmo sentindo que Chico estava preparado para receber mensagens psicografadas, Emmanuel impôs uma condição básica para trabalhar ao seu lado: que o médium seguisse, acima de tudo, os ensinamentos de Hippolyte Léon Denizard Rivail, cognominado Allan kardec (03/10/1804 - 31/03/1869).
A orientação é seguida à risca até hoje. Chico se limita a aprender e a transmitir os ensinamentos codificados por Kardec. A humildade é sempre presente nas atitudes de Chico, que revela aversão à idolatria e à tentativa de alguns que desejam mitifica-lo.
A VIAGEM A BELO HORIZONTE
Em janeiro de 1933, Chico trabalhava no armazém de José Felizardo Sobrinho como balconista, recebendo quarenta cruzeiros mensais. O amigo José Álvaro, poeta e escritor, propôs-se a levá-lo para a capital mineira em busca de um melhor salário. João Cândido seu pai, ficou entusiasmado e incentivou o filho a aceitar a proposta. Chico, defrontando-se com o dilema, consultou Emmanuel que lhe disse achar inoportuna a viagem, mas aconselhou-o a não desobedecer ao pai. Assim, ele resolveu viajar após conseguir uma licença no armazém.
Diante de um novo mundo em Belo Horizonte, onde participava de convenções literárias e recebia visitas de todos os tipos, Chico teve seu primeiro contato com a fama, pois todos queriam conhecer o autor do Parnaso. Durante três meses, ele permaneceu em Belo Horizonte, mas as agitações e os elogios não foram suficientes para fazê-lo perder a humildade. Regressou a Pedro Leopoldo retomando suas atividades no armazém do senhor Felizardo.
AS SESSÕES ABERTAS AO PÚBLICO
Dois anos mais tarde, Chico tornou-se alvo de uma longa reportagem do jornal O Globo. Essas reportagens colaboraram para que a fama de Chico Xavier ultrapassasse os limites de Minas Gerais. A partir daí uma verdadeira romaria invadiu Pedro Leopoldo para conferir as habilidades de Chico Xavier. Chico não se sentia à vontade com a notoriedade e, mais de uma vez, manifestou seu temor de que a fama excessiva pudesse prejudicar sua missão. Tal fato não ocorreu e o que ele não poderia imaginar era que anos depois seria conhecido e amado nos quatro cantos do país.
Nessa época o médium estava preocupado que as sessões abertas ao público, que era um trabalho sério que ele vinha realizando, se transformasse num simples show. Os textos eram psicografados por Chico Xavier em vários idiomas: inglês, alemão e até em sânscrito. Tal fenômeno era o que mais impressionava a leigos e estudiosos.
Emmanuel esperou por um período de dois anos e solicitou a Chico que as reuniões desse tipo fossem encerradas. Para o mentor o trabalho do médium vinha-se cercando de uma curiosidade improdutiva e isto certamente iria ameaçar a tarefa mais importante que seria a da divulgação de ensinamentos através de livros psicografados. Emmanuel sabia o que estava fazendo. Tanto é que a década de 30 foi a mais rica em termos de mensagens esclarecedoras. O mentor transmitiu toda a sua sabedoria em textos que tratavam dos mais variados temas, como Sociologia, Economia, Política, etc.
DESENCARNE DO IRMÃO
Com o desencarne de seu irmão e companheiro de luta, José Cândido Xavier, em fevereiro de 1939, Chico Xavier passa por mais um momento doloroso em sua vida. Acumulou então a tutela dos sobrinhos e da viúva Geni, companheira nas atividades espirituais, porém muito doente. Chico desdobra-se entre o trabalho no armazém durante o dia todo e à noite participando das sessões espíritas.
Nesta época ocorre mais um fato curioso: seu irmão deixara uma grande dívida referente à conta de luz. Com o que Chico ganhava era impossível liquidar tal débito. Um dia, sentado à porta de sua casa, recebeu a visita de um estranho que lhe diz ter vindo saldar uma dívida contraída há tempos atrás. Chico recebe o envelope, agradece ao estranho e, quando este se vai, abre o envelope e encontra ali a quantia exata para quitar a dívida deixada por seu irmão.
ANDRÉ LUIZ
Emmanuel é o principal mentor de Chico Xavier mas não o único a lhe ditar mensagens profundas e cheias de ensinamentos. Outro espírito de luz a comunicar-se através da psicografia de Chico Xavier é um cientista brasileiro que até hoje mantém sua verdadeira identidade incógnita. Comunicou-se com ele pela primeira vez em 1943 e o médium quis saber de quem se tratava. No entanto, a entidade, apontando para o irmão de Chico que dormia no quarto ao lado, pergunta pelo seu nome. Chico respondeu: "André Luiz". Então, disse o espírito: "De agora em diante este será o meu nome". Muitos acreditam que André Luiz foi Osvaldo Cruz, o pioneiro da medicina tropical no Brasil ou Carlos Chagas. André Luiz descreveu em suas obras experiências fascinantes sobre a vida após a morte.
A TRANSFERÊNCIA PARA UBERABA
Em 1958, já com 48 anos de idade, Chico Xavier sofreu uma crise de hérnia estrangulada e foi internado no hospital São José Batista, em Pedro Leopoldo. A conselho do médico, Chico foi transferido para Uberaba no início do ano seguinte. Melhorou da hérnia e também de uma labirintite que o fez diminuir por algum tempo sua produção mediúnica.
Tanto Pedro Leopoldo como Uberaba estão no coração de Chico em igual plano. Ele define seu amor pelas duas cidades dizendo: "Pedro Leopoldo é meu berço e Uberaba é minha bênção".
OS FENÔMENOS DE EFEITOS FÍSICOS
Chico Xavier não apenas psicografava como também realizava fenômenos de efeitos físicos. Certa vez perfumou a água que os assistentes traziam. De outra vez, o ar. Contam algumas testemunhas que Chico, certa ocasião foi rezar ao lado da cama de uma mulher muito doente e sem esperanças de vida. Enquanto o médium rezava, pétalas de rosas começaram a cair do teto sobre a doente. A mulher veio a desencarnar sem sofrimento, durante aquela madrugada. Após algum tempo desse acontecimento, Emmanuel intercedeu junto a Chico Xavier recomendando a suspensão dos trabalhos de efeitos físicos.
À medida que sua fama se propagava, cresciam também estórias dos poderes do médium, levando-o por diversas vezes a ter que esclarecer o público sobre a inveracidade de ser capaz de fazer um cego enxergar ou um paralítico andar.
A ASSISTÊNCIA SOCIAL
Aposentado pelo Ministério da Agricultura, Chico intensificou seu trabalho de assistência social, juntamente com a comunidade espírita de Uberaba, tentando colocar em prática as orientações de André Luiz, que na primeira edição de seu livro Nosso Lar, redimensiona a solução para os problemas sociais e mostra a diferença entre os serviços social, profissional e a assistência empírica paternalista.
A MISSÃO INTERNACIONAL
Em sua primeira missão internacional, Chico viaja para os Estados Unidos para auxiliar os espíritas brasileiros lá residentes. Esta visita foi programada e orientada por Emmanuel e André Luiz, surtindo como resultado a fundação "Christian Spirit Center" que tinha por objetivo difundir lá a doutrina espírita como é praticada no Brasil. Livros sobre o tema foram traduzidos para o inglês e até mesmo uma reportagem foi publicada sobre Chico Xavier na revista Cosmic Star, editada na Califórnia. A revista fez uma matéria a respeito de suas atividades e de sua comunidade em Uberaba.
Nesta mesma época Chico viaja para a Europa, onde encontra o estudo do espiritismo e a prática mediúnica desenvolvidos principalmente na Inglaterra. Ali ele afirma: "...os fenômenos mediúnicos são vivos em toda parte, mas na Inglaterra eles desfrutam de imenso respeito com as notáveis atividades que lhe são conseqüentes."
A partir da década de 60 a fama de Chico Xavier ultrapassa as fronteiras do país, transformando-o no mais famoso médium vivo no Brasil.
PRÊMIO NOBEL
Seu valor não ficou provado apenas pelos mais de cem títulos de cidadania que recebeu no Brasil. A comissão que organizou sua candidatura ao Nobel referiu-se ao trabalho do médium em prol da assistência social. É bem verdade que este reconhecimento não é unânime, pois o velho presidente da Academia de letras, Austregésilo de Athayde, declarou solenemente: "Aqui na Academia não conheço ninguém que se interesse por livros dele."
A indiferença da Academia não interfere no prestígio que Chico acumulou em mais de 60 anos de trabalho honesto e humilde. Prova disso foi a grande campanha realizada para que recebesse o prêmio Nobel da Paz em 1981, onde cerca de dez milhões de brasileiros endossaram a campanha, assinando manifestos e cartas.
AS SENSAÇÕES
Sua fama e também sua debilidade física, obrigaram-no ao isolamento forçado, mas nunca se negou a receber alguém ou conversar sobre qualquer assunto. Na época da série de reportagens do jornal O Globo, ele descreveu como se sentia no momento em que psicografava ou incorporava espíritos. O depoimento é válido até hoje tanto para os estudiosos quanto para os leigos. Chico contou que a música produz em sua mente "uma excitação muito especial", que pode levá-lo ao transe. "Outras vezes", ele diz, "escrevo num estado semiconsciente, sonhando acordado". Mas, o que ele sente no momento em que começa a psicografar as mensagens? "Faço tudo mecanicamente", responde. "Um torpor pesado e prolongado me invade. O torpor é profundo, mas é preciso que haja silêncio absoluto. Um chamado brusco, por exemplo, me perturba, me sobressalta, causa-me até um mal psíquico"
A HUMILDADE
Apesar de tantos livros editados e vendidos (mais de 406 títulos), ele recebe por mês apenas uma aposentadoria como ex-funcionário do Ministério da Agricultura. O dinheiro oriundo das vendas dos livros é doado às obras de caridade.
Hoje, apesar de sua idade e de todos os fatos que lhe ocorreram, Chico Xavier prossegue fiel em sua missão de revelar à humanidade a doutrina e os ensinamentos do Espiritismo. Jamais acusou alguém de ser mais ou menos bom para consigo, aceitando o ser humano como é, em nada o reprovando.