Atendimento Fraterno na Casa Espírita
Texto de Vanda Simões
Serviço de entrevistas
A) Objetivos
B) Papel do Centro Espírita
C) Esquema do Atendimento
D) Recepção e Triagem
E) Entrevista
F) Local das Entrevistas
G) O Entrevistador
H) O Entrevistado
I) Fichas de Informações
J) Carteira de Controle
K) Exame Espiritual
L) Remédios
M) Orientação ao Enfermo
N) Fluidoterapia
O) Reunião Mediúnica
P) Cuidados Médicos
Q) Ocupação do Enfermo
R) Resultados
S) Avaliações
T) Encaminhamento do assistido
A - Objetivos - O Atendimento Fraterno na casa espírita é um trabalho estruturado de forma a receber, em primeira mão, as criaturas necessitadas de ajuda que procuram na Doutrina Espírita a solução ou alívio para problemas de toda ordem. Essas pessoas, na maioria das vezes, já vêm de outras experiências no campo do auxílio e procuram o Centro Espírita, como "último recurso" para seus males. Muitas vezes céticos, esses indivíduos necessitam de boa dose de estímulo para permanecerem firmes na decisão de encontrar respostas para suas perguntas. O Atendimento Fraterno desempenha esse papel de recepção, esclarecimento básico, amparo, reajuste e redirecionamento de idéias. Trata-se de uma atividade que deve ser feita com seriedade, disciplina e preparo, pois às vezes, sendo esse o primeiro contato que o assistido tem com o Espiritismo, vai obrigatoriamente refletir a seriedade ou não do trabalho da casa.
Torna-se, pois, necessário, que os centros espíritas que se propuserem a esse tipo de trabalho assistencial tenham idéia da gravidade da tarefa que estão a empreender, a fim de que não cometam erros desnecessários.
B- Papel do Centro Espírita na sociedade - O papel fundamental do Centro Espírita na sociedade é ajudar as pessoas no processo de reequilíbrio, levando a mensagem moral de Jesus, à luz da Doutrina Espírita, à vida daqueles que ainda se encontram sob o jugo da ignorância. O Espiritismo, sendo o Consolador prometido pelo Mestre, deverá exercer um papel de agente transformador das criaturas, reconduzindo-as ao equilíbrio, através do esclarecimento. Cabe, portanto, à casa espírita, exercer influência na mudança de comportamentos e atitudes dos que a procuram na ânsia de receber ali a cura para seus males. Imperativo, pois, que o Centro Espírita disponha de mecanismos que possam melhor atender essas pessoas, orientá-las e encaminhá-las para a área de atividades doutrinárias que for mais conveniente. Esse tipo de serviço, prestado com o intuito de receber, ouvir, orientar e encaminhar o paciente na casa de caridade, é o Atendimento Fraterno.
C -Esquema do Atendimento - Todo trabalho prático precisaria ser fundamentado em estudo teórico prévio, com a finalidade de conhecer aquilo que vai ser realizado. Nos centros espíritas esta regra deveria ser observada com muito mais rigor, por razões óbvias, afinal está em jogo o equilíbrio espiritual das pessoas que os procuram. Entretanto, o empirismo ainda é a marca da improdutividade nas casas, por absoluta falta de hábito para os estudos da doutrina que se professa. Enraizou-se entre nós o costume de realizar as coisas sem planejamento, pois é regra geral que, para se fazer o bem, basta certa dose de boa vontade. A experiência secular nos mostra que não é bem assim. Se possuímos boa vontade, temos que aliá-la ao conhecimento a à ação, pois ela sozinha para nada serve. No Atendimento Fraterno é importante que se obedeça a um esquema mínimo de organização e conhecimento, a fim de que trabalhemos com ordem e disciplina. A seguir, falaremos de todos os itens relativos ao serviço de atendimento da casa espírita, para que cada grupo interessado possa desenvolver seu próprio esquema de recepção e assistência.
D - Recepção e Triagem - Grande parte das pessoas que adentram o Centro Espírita pela primeira vez, o fazem em busca de algum tipo de auxílio. Poucas são as que vão para conhecer o Espiritismo ou por curiosidade, ou ainda como visitantes. A casa espírita deve dispor de meios para bem receber essas pessoas. O primeiro passo para iniciar o trabalho de Atendimento Fraterno, é determinar o dia mais adequado e mais cômodo para se estabelecer o trabalho. Em nossa casa, esse serviço funciona no dia da reunião pública, duas horas antes do início dos trabalhos de explanação.
Em dia, horário e local preestabelecidos, um ou dois trabalhadores bem educados e treinados para a tarefa, receberão as pessoas que chegam pela primeira vez, dando-lhes as informações necessárias a cada caso. É necessário presteza, simpatia e agilidade, além de grande discrição e seriedade.
Neste caso, a primeira impressão que a pessoa terá do trabalho será muito importante. Pessoas sérias não retornarão a locais onde não transpirem idoneidade e credibilidade.
A triagem é feita nessa hora de conversa informal, onde o "recepcionista" observará pela sua perspicácia, qual a necessidade daquela criatura. Se for um caso que demande maiores cuidados, a pessoa será encaminhada à Sala de Entrevistas para uma conversa mais reservada e posterior direcionamento. Antes, porém, será preenchida uma ficha de dados, com informações básicas sobre o paciente: nome, idade, endereço, profissão etc. Caso contrário, ou seja, se a pessoa não estiver precisando de nenhum tipo de ajuda, ela será encaminhada para os trabalhos públicos de explanação. Se ao Centro Espírita for de médio porte e dispuser de pessoal treinado, poderá ter uma sala específica de triagem. Neste caso, a recepção apenas fará o seu trabalho básico, ou seja, preencherá a ficha com os dados e encaminhará o assistido para a sala de triagem que, então, direcionará a conduta do paciente conforme a necessidade. Ao nosso ver, este é o modelo ideal, pois todas as pessoas que vêm pela primeira vez à casa poderão ter um atendimento atencioso e não apenas aqueles que se dispõem a procurar ajuda.
A recepção deverá ser feita por pessoas que conheçam de perto o funcionamento da casa a fim de evitar situações constrangedoras em relação às informações desencontradas que possam prejudicar a credibilidade do trabalho. Nada mais desagradável do que receber informações equivocadas sobre qualquer coisa, mormente em um Centro Espírita.
E - Entrevista - Uma vez detectada a necessidade de maiores cuidados por parte da pessoa, ele será encaminhada à entrevista, que é uma conversa fraterna que se tem com o assistido, para que se possa tirar dele as informações necessárias para elucidação do caso e adequado auxílio. Importante que algumas perguntas sejam direcionadas para evitar divagações e longos relatos. O entrevistador deve conhecer técnicas de abordagem, a fim de não errar por excesso de zelo ou por omissão dele. A entrevista deverá ser breve e objetiva, tendo o cuidado para não ser este trabalho transformado em sala de desabafo e catarse.
F - Local das entrevistas - O local onde serão feitas as entrevistas deverá ser reservado. Não se pode esquecer que vão ser tratados assuntos da intimidade das pessoas e que se deve ter o maior respeito e discrição possível, frente a tantos dramas. Uma pequena sala pode ser determinada para tal fim, podendo ser aproveitada também para outras atividades, caso o Centro Espírita tenha problema de espaço. As entrevistas realizadas em sistema aberto, ou seja, vários entrevistadores em uma única sala, realizando o trabalho ao mesmo tempo, têm o grande inconveniente de não oferecer ao assistido a privacidade tão necessária nessa hora em que ele vai ali desnudar o seu problema. Entretanto, existem casas que o fazem e dizem ter resultados satisfatórios.
G - O entrevistador - A entrevista é uma tarefa que requer condições especiais do trabalhador. Não que tenha que ser uma pessoa isenta de erros, o que inviabilizaria o trabalho, mas alguém com condições morais acima da média, que tenha um bom embasamento doutrinário e maturidade suficientes para lidar com situações as mais inusitadas.
Os problemas que se apresentam são os mais variados, desde simples perturbações espirituais até obsessões graves, passando por problemas de ordem emocional, física e psíquica. A pessoa que ali está vê no entrevistador alguém que pode ajudá-lo a resolver seus problemas. Coloca com confiança a situação que o levou a buscar ajuda e têm expectativas em melhorar sua condição. É necessário, portanto, que o entrevistador seja pessoa preparada para esse mister, com devido treinamento nessa área, que tenha capacidade para compreender os problemas humanos, assim como condições para estabelecer um diálogo aberto e franco com o assistido.
Não deve o entrevistador permitir que se forme em torno dele uma aura de importância pessoal, com se ele fosse o grande responsável pelo sucesso dos trabalhos, tampouco induzir os entrevistados na certeza da cura de seus problemas. Tudo deve ser direcionado para deixar claro às pessoas que o trabalho é do Mestre Jesus e que somos apenas seus tarefeiros. Deve explicar que a mudança de atitudes é fundamental para a solução dos desajustes íntimos. Infundir confiança na assistência espiritual recebida é a grande tarefa do entrevistador.
Enfatizamos a necessidade de se ter uma equipe mais ou menos fixa de entrevistadores, treinada nessa área, e que se evite os chamados "rodízios" nessa tarefa, pois entendemos que infelizmente existem poucas pessoas com condições de lidar com problemas humanos. Além do que, essa é tarefa de grande responsabilidade que carece de muita dedicação e devotamento para se ter um resultado satisfatório.
H- O entrevistado - O entrevistado tem como sua principal característica, o fato de estar necessitando de algum tipo de ajuda. É importante que o entrevistador esteja preparado para atender as variações de problemas que serão apresentados na entrevista. A cada um, deverá ser dada uma orientação diferenciada, de acordo com as necessidades do caso.
O entrevistador que não possuir perspicácia poderá acabar sendo conduzido pelo entrevistado; em outras situações poderá ser induzido a este ou aquele procedimento, a dar essa ou aquela opinião. Convém estarmos alertas para as diferentes personalidades, com seus diversos problemas. Dentre o grande número de tipos de pacientes, citaremos alguns a título de exemplo:
O desesperado - A pessoa que procura o centro em estado de desespero, tem que ser acudido a qualquer momento. Em primeiro lugar, procura-se acalmá-la envolvendo-a em palavras de conforto, transmitindo-lhe confiança e carinho. Na maioria das vezes está sem condições para ouvir instruções mais objetivas, portanto o melhor será encaminhá-la ao passe, para num segundo momento entrar com as conversas instrutivas e de orientação.
O desespero pode ser oriundo das mais diversas causas, mas todo o fundamento dele se baseia na falta de fé e confiança no futuro. A pessoa se desespera porque não vê saída para seu problema. O sentido de perda lhe traz a sensação de que tudo está acabado. Através da segura orientação da Doutrina Espírita, temos que incutir lentamente no indivíduo a confiança em Deus e em Sua justiça, tirando-o do desespero. Com o tempo e o auxílio dos amigos espirituais, o paciente reencontrará o equilíbrio.
O desanimado
Normalmente um paciente é desanimado porque sua vida está sem sentido. Ele não tem ânimo para o trabalho e na maioria das vezes se isola do convívio social e familiar. Freqüentemente tem depressão profunda e pensamentos que se relacionam com a morte. É necessário ter muita cautela com a orientação doutrinária e ter sempre o cuidado de encaminhar o caso também ao médico terreno para que seja avaliada a necessidade do uso de medicações, por possíveis enfermidades físicas que possam estar instaladas no organismo.
Se possível, envolver a família na orientação, mostrando os riscos que corre o doente de enveredar-se pelo caminho do desequilíbrio. Explicar, através do diálogo fraterno e convincente, a necessidade de sua moralização, pela prática da religiosidade, da moral e organização da própria vida.
O descrente - É aquele que inicia sua conversa já dizendo que foi trazido por sua família ou amigos, mas que não acredita em nada etc. Na maioria das vezes quer ser convencido de alguma coisa ou espera que seus problemas sejam resolvidos por outros. Tenta fazer parecer que não está muito interessado na ajuda oferecida pelo centro espírita. Nestes casos, deixar claro que ele só será auxiliado se quiser e que terá que se esforçar para isso. Evitar atitudes paternalistas com o paciente. Muitas vezes a ação mais enérgica do entrevistador faz com que o indivíduo mude sua postura perante a vida. Mostrar as desvantagens da descrença e os benefícios que poderia ter, revertendo esse quadro.
O fanático - Esse tipo de personagem é muito encontrado entre espíritas que supõem resolver seus problemas com a ação dos Espíritos superiores, sem se esforçarem para vencer as dificuldades. Geralmente não aceitam interferências de terceiros em suas convicções e nos casos de doenças orgânicas chegam a desprezar o tratamento da medicina terrena. Acham que, por trabalharem no centro espírita, os irmãos espirituais estão a postos para ajudá-los a resolver seus problemas. É muito delicada a abordagem desse tipo de personalidade, pois trata-se na verdade de pessoas equivocadas quanto ao papel do Espiritismo na vida do homem.
Procurar orientar no sentido da compreensão das verdades divinas, retirando-o da faixa de fanatismo em que se encontra. Se houver condições psíquicas adequadas, mostrar racionalmente ao paciente seu equívoco de posicionamento. O exagero em qualquer setor da vida produz sofrimentos. Trabalhar para retirá-lo desse estado, com orientações através de entrevistas e palestras.
O "espírita" - São pessoas que se dizem "espíritas" porque tiveram contato com terreiros de Umbanda, Candomblé e mesmo com o Espiritismo. Querem ler muitas obras psicografadas (ou dizem que já o fizeram) e vão logo afirmando que gostariam de trabalhar na casa. Procuram auxílio por não estarem bem, mas na maioria das vezes, já dizem o que acham necessário para a solução de seus males. Isso torna bem difícil uma orientação mais efetiva. Na medida do possível, conscientizá-lo sobre a responsabilidade de ser espírita e demonstrar que a possibilidade de trabalho será definida mais tarde. Primeiro é necessário buscar um estado mínimo de equilíbrio espiritual.
O médium - Este tipo de assistido já vem com o diagnóstico de sua "mediunidade". Acha que a mediunidade é a causa de sua perturbação. Verificar, através da própria entrevista, onde exerce (ou exerceu) seu trabalho de intercâmbio; se num terreiro ou num centro espírita. A atividade mediúnica inadequada pode gerar perturbações no psiquismo das pessoas. Além do mais, dependendo de onde estava "trabalhando", o paciente pode estar sendo vítima de processo obsessivo oriundo de contaminação. Orientá-lo no sentido de que seu dom será reavaliado mais tarde, depois do tratamento. Jamais prometer que ele vai trabalhar como médium na casa, pois muitas vezes a pessoa vem à entrevista com essa intenção. Nunca encaminhar o paciente para sessões práticas de Espiritismo, antes de submetê-lo a tratamento, mesmo que o paciente já tenha tido orientação kardequiana.